Abro os olhos devagar, com medo da imagem que virá. Os sons ao meu redor só aumentam. São agudos e agonizantes.
Estou sentada em um muro alto. É quase noite, e não há luzes acesas por perto. Havia um rio ali – do outro lado, prédios. Um gato branco esta rolando nas folhas verdes que formam um monte. A partir do momento que começo a me concentrar nos movimentos das patas dele, as vozes vão se afastando.
Tiro meus olhos dele para ver um jeito de sair dali, e ouvi miados. Muito miados. Agora em conjuntos com os gritos. Esses gritos malditos que me pediam o impossível. Eles me mandavam fazer o que era certo.
Deveria encarar as coisas e eles gritavam comigo por eu não fazer isso.
Era bem mais fácil olhar para o outro lado e fingir que estava tudo bem.
O gato me encarava. Com tristeza nos olhos.
Meu corpo começa a se mover, sem que eu o comande. Ele está de pé naquele muro estreito. Pergunto-me de onde veio a aquele equilíbrio todo.
Nada estava fazendo sentido.
O gato se levanta, vira-se de costas para mim e começa a andar lentamente em direção ao rio.
As vozes começam a ter mais coerência formando gritos compassados numa melodia dolorosa. No meio da canção havia gritos. De crianças. E animais.
Som de fogo.
Sentia um sorriso largo se formar em meus lábios.
Andava saltitante sobre aquele muro como se fosse uma linha no chão. Como se não houvesse risco de cair dali.
Ando mais alguns metros e chego ao final dele.
Procuro o gato com os olhos e não o vejo.
Assim que se salto em direção a água, vejo o corpo do gato boiando por uma pequena fração de segundos.
E sei que o meu destino será o mesmo.